por Marilúcia Bottallo

O 8º Salão Bienal do Mar reuniu artistas que, com propostas estéticas e respostas sensíveis e visuais bastante distintas, mantêm uma essência definida pela relação que congrega as eternas questões do ser e estar humanos no mundo dos fenômenos. Trabalhos raciocinados na efemeridade buscam retomar um situar-se no mundo, agora de interterritorialidades e fronteiras líquidas.

Lucimar Bello apresenta-nos, em vasas.cidades. dos Alpes ao Ilha de Capri, um complexo jogo para o olhar. Nele, a síntese de uma densa reflexão sobre sua poética e sua arte. Suas características semióticas ultrapassam o processo de representação ou de uma possível significação e alcançam um campo lingüístico. As imagens revelam uma ‘desconstrução’ visual e conceitual, subvertendo as nossas mais internalizadas concepções de cidade, urbanismo, território, revelando uma visão fragmentária e distorcida. Esta, partindo da imagem em si, transgride os limites da representação, sugerindo uma não-narrativa. A escolha da mídia – vídeo-projeção na parede externa de um edifício – imprime o tom de um discurso visual, poético e semântico que pulveriza possíveis fronteiras, nas quais o tempo da experiência pode ser o caminho para a reconstrução de uma subjetividade possível. A arquitetura insistente, ainda que bela, ou mesmo, estranhamente alterada, sugere o abandono da idéia de não-lugares e nos desloca, mais uma vez, para a possibilidade de ‘novos lugares’. Questões que retornam ao humano e repensam o território, sugerindo a emergência de novas relações para além do econômico, revendo seu papel como um estranho princípio regulador, inclusive dos afetos.

Em: Humanidades em trânsito, Marilúcia Bottallo. Curadora convidada